terça-feira, 8 de março de 2011

E a Culpa é de Quem?

A culpa é de quem?

Que as desigualdades existem, todos sabemos e por vezes nos tornamos vítimas delas. Que as desigualdades de todo tipo – social, racial, religiosa, intelectual – existem e em vez de acrescentarem, segregam, todos nós sabemos. Mas há aquela que eu nunca tinha visto e fiquei perplexa: a desigualdade, ou melhor, a diferenciação, do que é igual.

Com a especialização crescente da mão-de-obra, o mercado de trabalho vem se tornando cada vez mais exigente, e isso diferencia profissionais da mesma área – os mais capacitados terão cargo de destaque e, por isso, melhores salários do que os demais profissionais de sua área, seja por posição de prestígio ou cargo de importância hierárquica, o que justifica a diferenciação dos vencimentos e gratificações.

O que não se justifica, são profissionais com a mesma instrução e formação, sem nenhuma diferença curricular, ocupando funções que exigem o mesmo nível de conhecimento, terem diferenças salariais, para que se sintam “motivados” a não se corromperem. Meu Deus, que país é esse?

É de perder a fé na honestidade, visto que chega a ser indecente gratificar um profissional para que ele exerça seu papel adequadamente, dar um bônus pra não se corromper, enquanto outros, da mesma categoria, não recebem tal gratificação. Logo, estes podem se corromper...Certo? É o que parece, já que há esse contraste absurdo.

Ao tomar ciência que Policiais Militares que são alocados em Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) em comunidades carentes livres da ocupação dos traficantes, recebem uma “gratificação extra” que o policial que é alocado em batalhões não recebe, para que esse não seja corrompido em seu local de trabalho, onde há possível presença de elementos desertores da lei, fiquei estupefata. O que é isso?

Se o policial recebe mais para que não aceite corrupção, ele já está sendo “corrompido” com a “lei” que o favorece, para que ele não se corrompa para o lado B, o lado dos Bandidos literalmente falando – aqueles que todos reconhecem como tal, por não se disfarçarem de bons cidadãos.

O problema é que essa diferenciação não é só privilegiar uns em detrimento de outros, mas uma forma de corrupção “lícita”, onde se evita que o policial favoreça o marginal, sendo ele próprio o favorecido pra isso.

Como exigir desses profissionais que trabalham na linha tênue entre legalidade e ilegalidade, que mantenham uma caráter firme e um exercício digno de sua profissão, se o próprio sistema o ensina que ele pode receber benefícios, logo, não é necessário se satisfazer com os salários que recebem?

Que os salários são inadequados, isso é fato, e é vergonhoso exigir que um Ser Humano arrisque sua vida em exercício da profissão, se ele não se sente minimamente valorizado pra isso, porém usar o próprio erro do sistema para dar um cala a boca pro servidor não é solução decente, tampouco honesta, especialmente para aqueles que não são beneficiados com tais regalias, e sendo assim, se sentem totalmente desvalorizados em seus papéis de extrema relevância para o estabelecimento da ordem, no meio a esse caos em que vivemos.

Do outro lado, esse policial que não é beneficiado, encontra nessa injustiça, sua justificativa para a corrupção. O salário dele não é suficiente e ele se desmotiva ao ver que há uma discrepância entre ele e colegas que exercem a mesma função que ele, em locais que agora, estão teoricamente mais seguros. Essa situação, só vem a denegrir e desprestigiar ainda mais uma classe cada vez mais desprovida de valor, e que tenta proteger a sociedade do crime usando sua vida como escudo. O sistema está errado. Ele foi feito pra dar errado? A culpa é de quem? De quem tem o poder ou de quem dá o poder?

A culpa é de quem faz errado ou de quem não contesta os erros e exige que se faça o certo?

No fim das contas, todos são corruptos consigo mesmos, ao se traírem, deixando suas convicções de lado por comodismo, porque tentar mudar, questionar ou lutar pela transformação exige vontade, muito esforço, e mesmo assim, nem sempre dá certo. E nem todos têm coragem pra isso. Subornamos nosso próprio eu e nos vendemos ao sistema quando não deixamos extravasar nossa inquietação latente e a nossa inconformidade hemorrágica por tudo estar como está.

Deu pany no sistema, e ninguém percebeu. Acharam que era assim mesmo que funcionava. Ou tanto faz, nem reparamos se funcionava ou não. Deixa estar...O imperfeito não participa do passado e a perfeição está longe do futuro...

...E a culpa é de quem?

By Mônica

Liberdade, Liberdade

Pra você, o que é liberdade?

Liberdade para mim é poder ir e vir para onde quiser, e na hora que quiser. É poder escolher a pessoa que vai governar meu estado ou país. É poder ir às ruas caso essa pessoa não esteja sendo boa para o povo. É poder ouvir, ler e ver o que eu quiser, sem ter que seguir tendências de mercado.

Foi pensando nessa pergunta que cheguei até essa resposta, e foi pensando na última parte dessa resposta que cheguei a uma conclusão (confuso isso, não?): Nós não somos livres!

Você deve estar se perguntando “como assim não somos livres?”, vivemos num país democrático, onde podemos falar o que quisermos, ouvir de tudo, ver o que nos der na telha, ler o que nos for interessante e acessar aquilo que nos convir. Então, “como assim não somos livres?”, eu reafirmo, não somos livres!

Nós não ouvimos tudo o que queremos, ouvimos aquilo que nos é imposto pela indústria. Se no passado, nos era imposto ouvir Beatles, Led Zeppelin, Raul Seixas, Cazuza e Legião Urbana, hoje somos obrigados a ouvir e a ver na TV Restart, Cine, Ke$ha e etc. Mas aí alguns vão pensar “você está comparando os artistas de antigamente com os de hoje?” e eu respondo: Não! Só estou querendo dizer, que se os Beatles ou o Led Zeppelin são idolatrados hoje, é porque foram bandas que apareceram numa época em que era legal ser bom, que era legal nadar contra a corrente, que era legal pensar. Hoje, eles seriam apenas aquela banda legal, que meia-dúzia de pseudo-revolucionários como eu e críticos de música, ouviriam, porque não fazem parte do lixo mercadológico que nos é imposto. E se não ouvimos e temos aversão ao que é produzido culturalmente hoje, é porque tivemos a oportunidade de ouvir Beatles, Led Zeppelin e Cazuza, antes de Restart, Cine e Ke$ha.

Uma prova do que estou falando? Quem que está lendo esse texto – alguém está lendo esse texto? – já ouviu falar em Edu Krieger ou Rodrigo Maranhão? Pois é, eles são considerados os grandes compositores da nova geração da música brasileira, mas você já ouviu falar deles? Acho que não, e na verdade, não vai ouvir, porque eles não vendem. Talento hoje não vende disco, um bom livro não vende tanto quanto a saga Crepúsculo, um bom filme de Coppola, Scorcese ou Almodóvar não vende tantos ingressos quanto (olha ele aí de novo) a saga Crepúsculo. E eu nem preciso dizer que em termos literários e cinematográficos, todos os exemplos que usei são melhores que os da saga Crepúsculo.

A juventude de hoje está perdida, assim como a juventude da década de 60, com uma abismal diferença, eles pensavam, nós pensamos que pensamos.

E sabe o que é mais triste? Quando estourou as revoltas no Egito, quando o povo foi pra rua para tirar um ditador do poder, e conseguiu, eu achei: “legal, agora vamos começar uma nova era”, foi quando uma notícia no telejornal veio como um balde de água fria na minha cabeça... O Exército estava do lado do povo (quer dizer, o Exército não estava do lado do presidente, porque o Exército nunca está do lado povo, e sim dele mesmo) e por isso (e só por isso), que o presidente Mubarak renunciou, ou seja, o povo nunca tem o poder. Nós somos apenas marionetes na mão da burguesia militar que vai continuar fazendo “revoluções” iguais a de 64 e dos grandes tubarões da indústria musical e cinematográfica, que fazem com a gente o mesmo que os produtores de foie gras* fazem com seus gansos, nos empurram todo tipo de lixo (comercial e industrial) para que possamos morrer pela boca, ouvidos e mente.

De quem é o poder?

Uns dizem que é do presidente

E outros, de quem vem mais de cima”

(Cazuza/ Nilo Romero / George Israel)

*http://pt.wikipedia.org/wiki/Foie_gras

By Eduardo

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Amor é Sorte *

“Sexo é escolha, amor é sorte...” (Amor e Sexo, Rita Lee/Arnaldo Jabor)

Sexta-feira 13, dia de superstição pra muita gente. Sendo treze de agosto então, nem se fala. Aí estava eu, a caminhar pelo fim da tarde, vendo o céu em tons de laranja, azul claro e as primeiras estrelas surgindo e pensei: Sorte. Nesse dia controverso, onde sorte e azar se misturam, dependendo do ponto de vista do observador, pensei em alguns momentos da minha vida, e como fui presenteada com algo que não tem preço, não tem como mensurar, e poucos o ganham, em forma plena, o amor.

Ah, o amor... “Que nasce não sei como, vem não sei de onde e vai não sei porque...”. Esse amor que só é realizado nos filmes de amor e no último capítulo das novelas, e na vida real está muito mais para platônico, fora do eixo, desorientador do que simplesmente apaziguador do nosso coração. Porque não é simples como nas ficções?

“O amor na prática é sempre ao contrário”, já dizia o poeta, e isso é verdade. E é um daqueles presentinhos mágicos que certas pessoas sortudas recebem, às vezes sem merecer, e alguns merecedores se questionam de porque não receber. Ele não é uma equação matemática do tipo: se eu faço tudo certo + sou uma boa pessoa + sou honesta, tenho bom caráter e disposição = ganho um amor de presente.

Você pode fazer tudo certo, sentar pra esperar, deitar porque cansou de sentar, dormir, porque cansou de ficar deitado, acordar numa ressaca emocional e o amor estar nem aí pra você. Nem perto de chegar. E você pode simplesmente piscar, dar “oi” pra um novo coração depois de mal ter acabado de dar “tchau” pra outro, e pimba! – Olha o amor aí te pegando desprevenido.

Ele não é como lutar por um emprego pelo qual se esforçou muito, e teve o mérito. Não é como uma prova que deseja passar, estudou muito, e teve sua recompensa. É apenas uma questão de sorte. O que eu, particularmente, acho uma tremenda injustiça. Todos merecem um amor. Mas se nem todos o merecem, que recebam os que façam valer a pena, e não aqueles que o deixam passar sem perceber seu valor. Porque nesse mundo, há toda sorte e tipo de gente: dos que amam amar e dos que amam ficar longe do amor. E se cabe à sorte e ao azar decidir o premiado da vez nessa loteria, que vença o que faz apostas, e não o que acha o bilhete perdido no meio de uma calçada.

Mas não é assim que acontece, e tudo isso tem um porque: quem o tem e deixa passar, um dia irá lamentar. Quem quer, faz por merecer e custa a ter, em uma bela tarde cinzenta, sem prazeres e expectativas, o encontrará molhado sob uma tempestade, amassado numa esquina qualquer, coberto de poeira quase impercebível, e apesar de pouco convencional e nada notável, não haverá dúvidas que ali estava, então, o tempo todo, escondida a sua sorte. Num cantinho bem guardado pra só você achar, e ninguém te roubar. Um bom amor a todos...

“Não tenha dúvidas, pois isso não é mais secreto. Juntos morreríamos, pois nos amamos. E de nós, o mundo ficaria deserto...” (Meu Mundo Ficaria Completo, Cássia Eller)

*Neoqeav

By Mônica

Política da Nova Idade Média

Quando os brasileiros forem às ruas para votar no primeiro domingo de outubro deste ano de 2010, está será a sexta vez desde o fim da ditadura militar que um presidente será escolhido por voto direto.

De 1989 pra cá muita coisa aconteceu, vou citar as mais importantes: Fernando Collor de Melo (o primeiro presidente eleito pelo voto direto) sofreu um impeachment, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso foi eleito e reeleito (e também pediu para que esquecêssemos o que ele havia dito em seus livros), o ex-torneiro mecânico Luís Inácio Lula da Silva também foi eleito e reeleito após perder três vezes consecutivas (e se aliou com antigos inimigos políticos, como os ex-presidentes José Sarney e o supracitado Fernando Collor).

De lá pra cá apenas uma coisa não mudou, a estrutura eleitoral – não estou falando da urna eletrônica, que é a única coisa boa do sistema eleitoral -, o povo continua sendo obrigado a votar (defendo que o voto não deve ser uma obrigação e sim um dever), as campanhas políticas continuam poluindo as ruas (e não só do ponto de vista ambiental, mas também sonora e visualmente), o horário político também continua sendo obrigatório, e somos obrigados a aturar um circo dos horrores recheado de hipocrisia e demagogia.

Como se isso tudo que citei no parágrafo acima não fosse o bastante, o debate político, a única coisa que salvava o período eleitoral da mesmice, deixou de ser a única oportunidade dos eleitores verem os candidatos de “cara limpa” sem toda a pirotecnia dos programas de partido e sem a companhia dos famigerados marketeiros. E se tornou apenas uma extensão do horário político, pois pelo que vi dos “melhores momentos” do primeiro debate entre presidenciáveis, as respostas (e perguntas) foram todas dadas em piloto automático e até o meu/minha candidato (a) preferiu usar como argumento para ser eleita a sua infância humilde (mais do mesmo?). E depois acabei confirmando esta minha opinião, quando soube que os candidatos passaram os três dias que antecederam o debate trancados com seus assessores, formulando as respostas que dariam para todo tipo de pergunta, das mais estaparfúdias até as mais clichês.

Infelizmente minhas expectativas para essas eleições são as piores possíveis e minhas esperanças para que o cenário político nacional seja menos confuso que a América Central está cada vez menor. Torço para que algo mude até o dia da votação, mas pelo que posso ver, o povo continua extremamente ignorante quando o assunto é política.

“Brasil mostra a tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim...”

(Brasil – Cazuza, Nilo Romero e George Israel)

By Eduardo

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A Espera Necessária

“Ela se encolhe e aguarda que a corrente do tempo a leve de volta ao seu próprio tempo.”

Era mais um dia de trabalho, e como sempre, apertei o botão a espera do elevador. Sabe aquela coisa de rotina, que já sabemos de cor qual será a próxima cena? Eu sabia qual seria, mas nunca tinha parado para refletir sobre ela, até que hoje, me deu um estalo. Saí do elevador e cumprimentei um senhor sentado na poltrona, ao lado. E parei pra pensar, que todos os dias, noites, feriados e finais de semana, que chego para trabalhar, está lá, o mesmo homem de idade avançada sentado sorridente na mesma poltrona, me cumprimentando e desejando um bom período de trabalho. Quem será ele? O que será que ele faz, passando sua vida ali? Quem será a pessoa que ele acompanha, espera, anseia pela cura, ou pelo irremediável fim? Perguntas que me vieram à mente, e não sabiam calar. Fiquei sem resposta, divagando possibilidades.

Será sua mãe? Creio que não, ela não deve mais ter idade para estar entre nós, já que se trata de alguém de idade avançada. Será um outro parente? Irmão, tio, primo, filho? Talvez. Porém, caso não seja um filho, creio eu que teriam outros parentes mais próximos para revezar a companhia, a menos que ele seja o único parente ainda vivo. A resposta mais lógica que chegou à minha mente – e confesso, a que quis aceitar como real – foi que ele esperava por sua esposa, sua mulher, companheira de uma vida inteira. Isso talvez justificaria dias e noites a fio, gastando talvez os últimos dias, meses e anos de sua vida dentro de um corredor cinza e silencioso de hospital, sorrindo para todos como se quisesse fazer nascer dentro de si, a esperança de tentar recomeçar, não importa o ponto da vida em que se esteja vivendo. Ou talvez ele disfarce muito bem, e por dentro esteja se corroendo em dor e inconformismo, mas ainda assim, precisa se apresentar forte, para dar força a quem tanto quer salvar com seu amor, que já não é mais o suficiente para curar.

Fiquei pensando no tempo de espera, que em algum momento de nossas vidas, todos nós devemos atravessar, com paciência e resignação. A espera necessária. Necessária para uma alma que busca plenitude. Para um coração que anseia conforto. Para sonhos que urgem eternidade. Todos temos um tempo, onde devemos esperar. Seja por um emprego, seja por um filho – no ventre ou fora dele – por uma promoção, por uma resposta, uma cura, um amor. Ou por uma esperança partida em vias de desfalecer. Mas é tempo de esperar, sem desacreditar, para que as coisas possam entrar nos eixos, ou nos consertar e nos alinhar à elas, agora em sua nova forma de ser.

A nós, meros e humildes mortais, basta força. Para encarar as mudanças que a vida nos traz, com coragem e garra para seguir em frente. Com fé que não nos abale diante do rompimento de tudo que nos é essencial, e quase sagrado. Com amor, para que recomecemos, sem deixar de crer que apesar de tudo, valeu a pena, e tudo aconteceu da forma mais bela que poderia ter sido.

E o bom velhinho da história? Continua esperando com um sorriso no rosto, como um adolescente no primeiro encontro com sua namorada. Isso lhe torna jovem, isso lhe faz forte. Sortudo daquele – seja lá quem for: irmão, primo, filho, esposa – que está sendo acompanhado. Ele não desistiu. E se é necessário, ele vai até o fim.

By Mônica

Alguém Pode Dizer o Que é Normal?

Bom... Sei que isso já virou rotina, mas esse comentário que irei fazer no início do texto se faz necessário: Vou logo avisando, estou passando por um ócio criativo e o tema de hoje foi sugerido pela minha parceira no blog. Espero que não se decepcionem com minhas idéias.

Depois de pedir socorro para Mônica no desenvolvimento de um tema para este texto, ela me sugeriu que falasse do caso da procuradora que espancou uma menina de dois anos de idade, que a própria procuradora queria adotar. Também me foi sugerido falar de como nós - a sociedade - já nos acostumamos com casos de violência e já não ficamos tão horrorizados como antigamente (a violência é tão fascinante e nossas vidas são tão normais?).

Como a ordem dos fatores não altera o produto, vou começar a falar sobre a violência.

Renato Russo era realmente um visionário. É incrível, como os assuntos relacionados à violência vem ganhando destaque na mídia brasileira (falo isso não só como leitor e telespectador voraz de jornais e telejornais, mas também como estudante de jornalismo. E sim, nos é ensinado na faculdade que violência vende jornal). Hoje ninguém mais fica chocado com notícias como a do corpo de uma mulher de 21 anos que foi encontrado dentro de uma mala no Canal do Leblon. No primeiro dia se faz todo um circo em cima do caso. No segundo dia se corre atrás para saber quem é o assassino. E no terceiro dia, depois de descoberto quem foi o monstro que fez aquilo, o caso some das manchetes, as pessoas já não se importam mais e foi apenas mais uma vida que foi tirada de forma estúpida e brutal.

É incrível como ninguém mais se revolta com nada. E daí se uma pessoa morreu ali na esquina? O que me importa se dez morreram na favela? O que importa é chegar em casa tranqüilo e em segurança, não é isso que todos pensam? A violência só passa a ser um problema nosso a partir do momento em que nos afeta diretamente, quando nós somos os alvos dela, ou quando pessoas que amamos sofrem com esse mal.

Sem querer ser portador da verdade, eu sinceramente acho que de nada adianta UPP’s, reforço de policiamento ou essas medidas que todo governo adora adotar para dizer que está fazendo alguma coisa, enquanto as pessoas continuarem achando banal o fato de “só” terem morrido 493 pessoas em 120 dias até agora em 2010. E não só isso, o governo comemora esta marca como a menor desde 1991. Eu estou ficando louco ou algo precisa mudar urgentemente na secretaria de segurança?

O próximo assunto foi algo que me chocou. Na verdade, eu nem sei o que escrever sobre esse assunto, porque minha ficha até agora não caiu e sempre tomado por um sentimento de raiva e profunda tristeza quando me lembro disso, mas vamos lá, já que me comprometi a tratar deste assunto e vou fazê-lo.

O que pensar quando você vê no jornal a notícia que uma procuradora de justiça espancou uma menina de dois anos? E o pior (como se ainda fosse necessário ter algo pior...), a promotora, estava lutando na justiça para conseguir ter a guarda tutelar da menina. Eu não sei vocês, mas no momento em que vi isso, demorei pelo menos uns cinco minutos para poder conseguir compreender o que estava sendo dito e para poder aceitar as informações que estavam sendo mostradas.

Como é possível uma pessoa em sã consciência (ok, essa mulher não devia estar em são consciência) se dar ao prazer de lutar na justiça pela guarda de uma criança só para ter o prazer de espancá-la? E não me venha dizer que isso fazia parte de um ritual satânico para uma seita pagã qualquer, porque isso é a maior estupidez. A melhor definição para o caso dessa mulher é um trecho da música “Cotidiano de um Casal Feliz”, do cantor Jay Vaquer, que diz mais ou menos assim: E até pensa em adotar alguma criatura, pode ser uma criança ou um labrador. Só depende da raça, depende é da cor que pintar primeiro...”.

Para por fim a este assunto, sem me prolongar muito mais, eu apenas vou dizer que ainda acredito que a justiça seja feita, mesmo que algo dentro de mim diga que esse caso será esquecido como tantos outros casos, que essa mulher será esquecida pela justiça e continuará recebendo sua excelente aposentadoria paga advinhem por quem? Exatamente... Por nós!

Cadê meu nariz de palhaço?

E antes de encerrar este texto, vou comentar uma coisa e fazer uma pergunta... Quando perguntaram para as empregadas da procuradora (essas que também eram humilhadas por causa da sua cor e do seviço que exerciam na casa da aposentada) por que elas a denunciaram, a resposta foi simples e direta: “Porque se nós não fizéssemos isso, quando encontrassem a criança cheia de hematomas, ela iria dizer que a culpa era nossa”.

O xis da questão é: Em quem vocês acham que a polícia acreditaria? Na respeitável procuradora aposentada que estava lutando pela guarda da menina ou nas duas domésticas? E você... Em quem acreditaria?

By Eduardo

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Aline no País das Maravilhas

Já comecei a falar do Mundo das Maravilhas há muito tempo, desde que era criança e tinha Alice no País das Maravilhas como desenho predileto, que assistia todo dia, ao voltar da escola. Essa semana, em especial, quis voltar a falar dela, devido à estréia do filme com direção de Tim Burton. Assim, comecei a divagar sobre ela no outro blog, como podem conferir, e agora venho aqui, falar mais e mais. Mas vou deixar a Alice de lado só por hoje, e me focar apenas no País das Maravilhas, no meu. Aquele que cultivo no meu imaginário desde criança, e que o filme dava asas para voar.

Nesse mundo só meu, as flores não morrem, e não falo das de plástico. É sempre primavera, o amor tem sempre a porta aberta e nosso futuro sempre recomeça. Em todas as mesas, há pão, e no chão, flores enfeitando os caminhos e os destinos. No meu País das Maravilhas, os índios não são mortos para ganharmos um milhão, e todas as crianças têm educação. Ano de eleição é festa, mas não devido ao Brasil ser Hexacampeão: a democracia acontece em seu esplendor, e bons tempos se iniciam com alguém a acabar com a corrupção, a trazer progresso e honrar cada frase do nosso hino e cada voto de gente honesta, que o fez ganhar o poder da nação.

No meu País das Maravilhas, notícia de jornal é ação altruísta pelas crianças com fome na África, cura de doença terminal, fim das secas no nordeste, camada de ozônio regenerando, capitalismo se modificando, para não haver tanta competição, e assim, todos progredirem juntos.

País das maravilhas, ou Mundo das Maravilhas, é todos terem a arte de viver da fé, sabendo muito bem que um só Deus ao mesmo tempo é três e esse Deus será idolatrado por nós, porque é justo deixar um Deus feliz.

Utópico seria não haver solidão, soberba, ira, avareza. E dos pecados que existem, se só restasse gula por caridade e preguiça de desvio de verba. Graças a Deus, sonhar ainda é de graça, e que sonho louco meu lado Alice alimenta no meu imaginário, nesse mundo com flores gigantes, casas de chocolate e um pólo norte todo de sorvete. Onde os bichos falam conosco, entendemos seus sentimentos e os tratamos dignamente. Onde podemos ouvir da lagarta, suas lições antes dela virar borboleta, e aproveitar suas últimas 24 horas de vida voando pelo infinito azul. Onde podemos ver gatos sorrindo e desaparecendo, onde coelhos dizem que ainda é cedo, cedo, cedo, cedo, cedo...Para desistir dos nossos sonhos. Onde chapeleiros malucos comemoram o desaniversário de todos os excluídos, e uma xícara de chá seja ofertada a todos que tem fome.

Eu quero mudar o mundo, e me acho pretensiosa demais por isso. Mas ser despretensioso não leva a nada. Quem me dera ao menos uma vez, existir um cogumelo que nos faça crescer e diminuir! Crescer como seres humanos, como bons espíritos, livres e que não deixam nada lhes possuir. Diminuir o medo que escorre entre nossos dedos e o fracasso que de vez em quando, nos sobe à cabeça. Essa é uma parte do meu País das maravilhas, que seja sonho ou fantasia, somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter. E sonhos vem, e sonhos vão, e o resto é imperfeito. Venha sonhar nesse mundo, que o que vem, é perfeição.

By Alice (Vulga Mônica)


Alice no Brasil das Maravilhas

Bom... Vou logo avisando aos navegantes, essa semana estarei me enveredando por um universo pouco conhecido, aquela da menina loirinha que segue o coelho branco e acaba caindo no incrível País das Maravilhas. E como eu não gosto de viajar por mares nunca dantes navegados, resolvi dar nome para este país, então... Vamos comigo e com a Alice direto para o Brasil das Maravilhas, o país das falcatruas, das falsas revoluções e dos caretas e covardes.

Ao invés de utilizar a Alice criança do clássico de Lewis Carroll, vou utilizar a Alice adolescente de Tim Burton, que está fugindo de um casamento armado com um playboy esnobe.

O que aconteceria se Alice ao cair na toca do coelho fosse parar em Brasília? Qual seria a impressão da menina ao chegar e dar de cara com a Praça dos Três Poderes? Iria ficar deslumbrada com certeza, assim como fez João de Santo Cristo, se fosse Natal, então, aí que seria uma maravilha (até porque como é época de recesso, não teria nenhum político em Brasília, essa é a época mais feliz da cidade). Alice acharia fascinante aquela cidade projetada, aqueles prédios incríveis, tudo milimetricamente calculado para que o poder político do país saísse de um grande centro como o Rio de Janeiro e fosse para um lugar bem escondido, para que nossos governantes pudessem fazer tudo que lhes desse vontade, sem que fossem atrapalhados pela opinião pública ou pelo povo que os elegeu (vocês brasileiros que não vivem no país das maravilhas sabem que a capital do país foi para um pedaço de terra no meio do planalto central para poder acobertar mais facilmente as falcatruas que são cometidas pelo honráveis deputados e senadores, né? Não? Santa inocência!).

Caminhando ainda um pouco mais, Alice deu de cara com as cidades satélites, aquelas que não foram projetas por nenhum gênio da arquitetura, e sim pelos retirantes nordestinos que ajudaram a construir Brasília, e que após a sua inauguração não encontraram espaço na cidade modelo e tiveram que se resignar a lugares com condições de vida precárias. E como claro, não é essa a Brasília que aparece nos comerciais de TV, esse povo não tem a menor importância para os políticos, porque o que importa é o que os olhos vêem e não o que o coração sente (isso aqui Ioiô, é um pouquinho de Brasil, Iaiá).

Alice, chocada com o que viu na capital do país, resolveu visitar o Rio de Janeiro, grande cartão postal do Brasil, cidade maravilhosa, que vive atolada na violência, purgatório da beleza e do caos que neste mês se transformou no inferno na terra (afinal, o que falar de uma cidade onde vândalos pixam o rosto do Cristo Redentor?). Que vive “feliz” com o milagre das UPP’s, que prometem acabar com a violência dos morros – pelo menos na Zona Sul.

Alice chegou ao Rio no dia da passeata contra a emenda Ibsen, que quer tirar do Rio sete bilhões de reais de royaltes originados da produção de petróleo do estado. Movimento que uniu políticos que se odeiam em prol do Rio (Alice neste momento achou que estava presenciando um momento histórico na política nacional... O governador Sergio Cabral de mãos dadas com a ex-governadora e esposa de um pré-candidato ao governo do Rio Rosinha Garotinho. Foi quando nesse momento um manifestante gritou: hipócritas! Ela só está de mãos dadas com ele, porque não quer que o marido pegue essa bomba se for eleito.). Alice percebeu que quando se trata de Brasil e quando se trata de política, no Brasil nada é o que parece ser. Na verdade, nem o povo é sempre inocente. É triste dizer isso, mas a passeata contra a covardia do petróleo, só levou mais de meio milhão de pessoas às ruas, porque haveriam shows e o povo adora um show gratuito.

Saindo da muvuca armada pelos políticos, Alice encontra um casal de namorados que vê de longe todo circo armado envolta do palco e pergunta por que eles não estão ali no meio e ouve a resposta em forma de música: “Quero cantar o blues com um pastor e um bumbo na praça, vamos pedir piedade, pois há um incêndio sobre a chuva rala, somos iguais em desgraça, vamos cantar o blues da piedade...”.

Alice nada entendeu. Como se é possível viver num país aonde os políticos só se importam com seus interesses e não com os interesses do povo? Como é possível que o povo de uma cidade não se importe se a cidade vai perder ou não um dinheiro que é fundamental para a sobrevivência do estado (talvez porque os cariocas nunca tenham visto esse dinheiro ser investido em nada)?

Desolada e sozinha, Alice pensa: A rainha de copas era um anjo comparado com as coisas que estou vendo aqui... Por que eu não fui para o país das maravilhas?

...

O Sol entra pela janela e Alice desperta, ela está na sua cama, em sua casa e se lembra do sonho que teve. Fala em voz baixa: Nunca mais sigo o coelho branco!

By Eduardo

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Como os Pássaros me Ajudaram a Entender Deus

O Post dessa semana não era pra ser esse. Novidade. Tinha pensado nos mínimos detalhes para fazer um texto sobre Respeito. Aquilo, que a educação manda usar, mas que está em extinção. Ia aproveitar a Semana Santa e explanar sobre respeito, e a minha vontade que ele volte à moda, aproveitando que as coleções Outono-inverno já estão nas vitrines, e prometendo arrasar.

Mas, porém, contudo, todavia, estava eu, numa sexta-feira de linda manhã ensolarada, pós plantão na noite anterior, fazendo uma inocente caminhada. E eis que nesse cenário, vi uma das cenas mais belas que a natureza já me proporcionou. Um espetáculo cujo diretor era Deus, e eu estava ali, na primeira fila.

Eu caminhava à margem do mar. E alguns pássaros sobrevoavam ali, pousados na água como patinhos a nadar. Até aí, tudo bem. Ficou meio impressionante, quando bandos e mais bandos (coletivo de pássaros? Falha de memória do meu tempo de primário, oras) de pássaros vinham voando na direção destes, que estava todos juntos nadando, como um tapete sobre a água. Os que vinham, se juntavam a estes que já estavam, e alguns poucos voavam baixinho, em círculo, sobre os que nadavam, com um balé incrível que parecia ser a coreografia da música que eu ouvia no meu mp3.

Ao olhar pro Horizonte, para a direção de onde vinham os pássaros, milhares deles vinham ainda voando nessa direção, como se tivessem mesmo marcado uma festa ali, ou como se pressentissem o encontro. Não demorou muito, e todos paravam para olhar aquele espetáculo em plena 8 horas da manhã de uma sexta-feira como outra qualquer.

Também não demorou muito para os milhares de
pássaros cobrirem a água de tal forma, por serem muitos, que não víamos água, só um imenso tapete voador, com mergulhos repentinos, e demorados - meu Deus, o que aconteceu? - e emergiam com um peixe. Uau. Simples?Que nada. A cena a seguir me explicou tudinho. Depois de dançar no ar, nadar e comer, os pássaros saiam de dois em dois, voando de volta, de onde vieram. Eles vieram namorar, tá explicado. A dança, no mínimo é parte da sexualidade animal.

E com isso, me recordei de um livro que li, amei e mudou minha vida, se chama "Como os Pinguins me ajudaram a entender Deus", do americano Donald Willer. No livro, ele, um ex-ateu que se converte ao protestantismo, fala de como o "sexo dos pinguins", como ele mesmo define, o ajudaram a entender Deus, porque algo perfeito e sem explicação, só pode ter Deus no meio. Meio, começo e fim.

Ele explica um documentário que viu na TV onde o Pinguim macho fica "chocando" o ovo por meses e meses, enquanto a fêmea sai em busca de comida, numa longa viagem. Mas ela sempre retorna no dia exato que o filhote nasce, horas antes, assumindo o posto de "parideira". E isso, pra ele, é um marco em sua fé. E ele dá muitas lições no decorrer da leitura. Coisas deliciosas de se ler, até porque em momento algum ele nos diz coisas que nos fazem seguir e crer. Mas ele conta tudo que aconteceu como ele pra que ele passasse a ter fé. E isso sim, vale mais que mil
palavras.

Acho, que naquela sexta-feira humilde e despretensiosa, algo mudou em mim, ao ver aquela cena, que se compara aos Pinguins de Donald: Eu me senti inexplicavelmente feliz por estar ali, mesmo odiando atividade física. Eu me senti numa trilha-sonora de final feliz de filme. Eu só pude agradecer por estar ali, quando muitas vezes esbravejei por nada, tendo sempre tudo de melhor na minha vida, e querendo sempre mais do que está ao meu alcance, desvalorizando inconscientemente todas as jóias que estão me afortunando.

Eu agradeci minha vida, e minha Saúde. Eu agradeci pela vida dos meus pais, minha irmã, meus amigos. Eu agradeci por ter ganho o amor que sempre pedi. Agradeci meu emprego e o emprego do meu bem. Pedi a Deus pra curar uma amiga. Pedi a Ele pra ajudar outra a conseguir a viagem que tanto quer pra um país distante, o que me fará sentir muitas saudades. Pedi por uma amiga que vai fazer uma prova. Pedi pela minha prova, e do benzinho. Pedi um bom dia. Pedi por uma amiga que se foi, e por outra que ficou. Agradeci pelo que meus olhos viram. E agora, me sinto renovada ao escrever isso, com a chance de talvez não ser lida por ninguém. Ou mesmo, ser lida, mas compreendida, talvez não.

Porque as experiências mais marcantes que temos em nossas vidas são ímpares. Vivemos e nos deliciamos, mas para os outros, são "apenas cereais". No filme "Click", o homem que dá o controle remoto à Adam Sandler, diz que a vida é como um comercial de cereais. Que tudo parece mágico até chegar aos cereais, no fim do arco-íris, mas que quando chega lá, são apenas cereais, pois a graça não está em chegar atá lá, mas em tudo o que acontece no caminho até onde se deseja chegar.

É isso. O caminho é mais importante que o destino final. Até porque, ninguém quer o final, quer o meio. E que ele seja recheado de sabores, prazeres, delícias, espetáculos em plena terça-feira a tarde, de chuva e frio. Surpresas. Mágicas e espantosas, mas que tirem nossa alma da mesmice, da apatia e da rotina cansativa e que apaga nossa vontade de algo novo.

Que nessa semana, Santa por convenção, possamos refletir. Repensar nossos valores, nossa fé, e o que verdadeiramente nos move e nos faz mover montanhas. Que Santa, não seja a semana onde um homem morreu pra nos provar que a vida vale a pena, e renasceu para que tenhamos esperança. Que Santo seja a forma como direcionamos o nosso olhar, com sensibilidade o suficiente para não deixar morrer a esperança em lugar algum. E para que a fé possa ser vivo instrumento capaz de gerar mudanças no mundo que queremos melhor pra nós.

Feliz Páscoa a todos.

Vívian, sinto saudades de ti.

By Monica

Tema, Sem Tema.

Antes de qualquer coisa, começarei este texto com um aviso: Este texto não terá um tema central. Aí vocês vão se perguntar: “Oras e como esse cara quer que a gente leia um texto que não tem tema?”, e eu lhes respondo: “Este texto é como a vida... Ele falará de tantos temas, que no final das contas ele não terá tema.”.

Se conseguir transpor para cá os meus pensamentos, eu dissertarei sobre o casal Nardoni e a Semana Santa.

Vamos tentar começar falando do casal Nardoni que foi acusado, julgado e condenado pelo assassinato da pequena Isabella, filha de Alexandre.

Tentando me incentivar a escrever, Mônica me deu uma excelente idéia... Falar do que aconteceria no Brasil se ao invés de condenados, o casal fosse considerado inocente do crime.

Eu juro que estou tentando imaginar a cena: Um carro da polícia saindo pela porta dos fundos do fórum com o casal. Um sorrindo para o outro, com a sensação de que conseguiram enganar a todos e de que o tempo que passaram na cadeia foi apenas umas férias pagas com dinheiro do contribuinte. Os policiais no banco da frente revoltados com o fato de terem que escoltar o famigerado casal. As pessoas na porta do fórum querendo fazer um quebra-quebra com a decisão do juiz, o promotor Cembraneli soltando fogo pelas ventas, dizendo que vai recorrer da decisão e os advogados de defesa falando que a decisão foi justa. Nos jornais de domingo todos os colunistas escreveriam sobre o assunto, e o Fantástico faria uma enorme matéria tentando explicar (e entender) como o casal foi inocentando, mesmo com todas as provas apontando o contrário.

Com certeza na segunda-feira Alexandre e Ana Carolina dariam uma entrevista coletiva dizendo que a justiça foi feita. Alexandre dizendo que a filha era seu bem mais precioso e que estava sofrendo muito com aquilo tudo. Ana Carolina dizendo que tudo que viveu foi um pesadelo e que quer esquecer o passado e cuidar dos filhos.

Enquanto do outro lado da cidade, numa sala vazia e triste, uma mãe estaria chorando, segurando o relicário com a foto dela e da filha morta, uma criança de cinco anos, que foi defenestrada do sexto andar do prédio do pai, pelo próprio pai após ser praticamente torturada pela madrasta que a odiava simplesmente porque ela parecia com a mãe. Ana Carolina Oliveira estaria em estado de choque, porque além de ter perdido sua única filha, também corria o risco de encontrar com os culpados no cinema, no teatro ou em qualquer outro canto da cidade, pois eles haviam sido inocentados de um crime que nem eles acreditam que não cometeram.

As pessoas que ainda estão lendo este texto devem estar se perguntando por que escrevi isso tudo, já que graças a Deus o casal foi condenado e a mãe de Isabella mesmo que não possa ter a filha de volta, pelo menos pode ver os culpados atrás das grades. Eu fiz isso porque quero dizer que tudo o que aconteceu foi uma grande hipocrisia. Querem saber por quê?

Porque em mais ou menos 12 anos (até antes, esperem só a opinião pública esquecer do assunto) Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá estarão por aí livres aproveitando a decisão que os liberou para passar os dias em casa e a noite na cadeia, e depois de mais um ou dois anos – tudo depende da competência de seus advogados – eles estarão completamente livres, simplesmente proibidos de sair do seu estado de origem.

Nossa justiça não está preparada para punir assassinos do quilate dos Nardoni. Porque nada vale o fato deles terem sido julgados, e considerados culpados, pois isso talvez só tenha acontecido porque a opinião pública foi muito mais eficiente que o promotor público.

Depois do primeiro assunto heavy metal, vou tentar aliviar um pouco falando da Semana Santa.

A Semana Santa começa envolta num escândalo que assombra a sagrada Igreja Católica e seu sumo pontífice, uma acusação de que Bento XVI teria acobertado um caso de pedofilia na época em que era Arcebispo de Munique. Prometo não destilar aqui minha artilharia contra a Igreja, mas vamos concordar... Já está na hora de alguns dogmas, que eu qualificaria como no mínimo medievais, serem atualizados, não é? Essa história de voto de castidade é algo inútil e que com certeza abalaria menos a credibilidade da Igreja Católica do que os diversos casos de pedofilia.

A Semana Santa é uma época importante para os cristãos, é quando as pessoas estão mais solidárias, é quando realmente tratamos as outras pessoas como irmãs. O problema é que essa semana não deveria ser a única do ano em que as pessoas fazem isso. O problema do ser humano é que até na religião ele encontra motivo para fazer guerra.

Digo isso porque não existe nada mais absurdo do que uma guerra que tem como objetivo uma cidade que é considerada santa. Pela quantidade de sangue que já foi derramada, Jerusalém deixou de ser santa há muito tempo... Se é que foi um dia. Para não esquecermos de Renato Russo na semana de seu aniversário, faço minhas as palavras do grande poeta: “Não pode existir guerra santa, isso é uma contradição em termos.”

Boa páscoa!

By Eduardo

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