sexta-feira, 30 de abril de 2010

Alice no Brasil das Maravilhas

Bom... Vou logo avisando aos navegantes, essa semana estarei me enveredando por um universo pouco conhecido, aquela da menina loirinha que segue o coelho branco e acaba caindo no incrível País das Maravilhas. E como eu não gosto de viajar por mares nunca dantes navegados, resolvi dar nome para este país, então... Vamos comigo e com a Alice direto para o Brasil das Maravilhas, o país das falcatruas, das falsas revoluções e dos caretas e covardes.

Ao invés de utilizar a Alice criança do clássico de Lewis Carroll, vou utilizar a Alice adolescente de Tim Burton, que está fugindo de um casamento armado com um playboy esnobe.

O que aconteceria se Alice ao cair na toca do coelho fosse parar em Brasília? Qual seria a impressão da menina ao chegar e dar de cara com a Praça dos Três Poderes? Iria ficar deslumbrada com certeza, assim como fez João de Santo Cristo, se fosse Natal, então, aí que seria uma maravilha (até porque como é época de recesso, não teria nenhum político em Brasília, essa é a época mais feliz da cidade). Alice acharia fascinante aquela cidade projetada, aqueles prédios incríveis, tudo milimetricamente calculado para que o poder político do país saísse de um grande centro como o Rio de Janeiro e fosse para um lugar bem escondido, para que nossos governantes pudessem fazer tudo que lhes desse vontade, sem que fossem atrapalhados pela opinião pública ou pelo povo que os elegeu (vocês brasileiros que não vivem no país das maravilhas sabem que a capital do país foi para um pedaço de terra no meio do planalto central para poder acobertar mais facilmente as falcatruas que são cometidas pelo honráveis deputados e senadores, né? Não? Santa inocência!).

Caminhando ainda um pouco mais, Alice deu de cara com as cidades satélites, aquelas que não foram projetas por nenhum gênio da arquitetura, e sim pelos retirantes nordestinos que ajudaram a construir Brasília, e que após a sua inauguração não encontraram espaço na cidade modelo e tiveram que se resignar a lugares com condições de vida precárias. E como claro, não é essa a Brasília que aparece nos comerciais de TV, esse povo não tem a menor importância para os políticos, porque o que importa é o que os olhos vêem e não o que o coração sente (isso aqui Ioiô, é um pouquinho de Brasil, Iaiá).

Alice, chocada com o que viu na capital do país, resolveu visitar o Rio de Janeiro, grande cartão postal do Brasil, cidade maravilhosa, que vive atolada na violência, purgatório da beleza e do caos que neste mês se transformou no inferno na terra (afinal, o que falar de uma cidade onde vândalos pixam o rosto do Cristo Redentor?). Que vive “feliz” com o milagre das UPP’s, que prometem acabar com a violência dos morros – pelo menos na Zona Sul.

Alice chegou ao Rio no dia da passeata contra a emenda Ibsen, que quer tirar do Rio sete bilhões de reais de royaltes originados da produção de petróleo do estado. Movimento que uniu políticos que se odeiam em prol do Rio (Alice neste momento achou que estava presenciando um momento histórico na política nacional... O governador Sergio Cabral de mãos dadas com a ex-governadora e esposa de um pré-candidato ao governo do Rio Rosinha Garotinho. Foi quando nesse momento um manifestante gritou: hipócritas! Ela só está de mãos dadas com ele, porque não quer que o marido pegue essa bomba se for eleito.). Alice percebeu que quando se trata de Brasil e quando se trata de política, no Brasil nada é o que parece ser. Na verdade, nem o povo é sempre inocente. É triste dizer isso, mas a passeata contra a covardia do petróleo, só levou mais de meio milhão de pessoas às ruas, porque haveriam shows e o povo adora um show gratuito.

Saindo da muvuca armada pelos políticos, Alice encontra um casal de namorados que vê de longe todo circo armado envolta do palco e pergunta por que eles não estão ali no meio e ouve a resposta em forma de música: “Quero cantar o blues com um pastor e um bumbo na praça, vamos pedir piedade, pois há um incêndio sobre a chuva rala, somos iguais em desgraça, vamos cantar o blues da piedade...”.

Alice nada entendeu. Como se é possível viver num país aonde os políticos só se importam com seus interesses e não com os interesses do povo? Como é possível que o povo de uma cidade não se importe se a cidade vai perder ou não um dinheiro que é fundamental para a sobrevivência do estado (talvez porque os cariocas nunca tenham visto esse dinheiro ser investido em nada)?

Desolada e sozinha, Alice pensa: A rainha de copas era um anjo comparado com as coisas que estou vendo aqui... Por que eu não fui para o país das maravilhas?

...

O Sol entra pela janela e Alice desperta, ela está na sua cama, em sua casa e se lembra do sonho que teve. Fala em voz baixa: Nunca mais sigo o coelho branco!

By Eduardo

1 comentários:

Nine disse...

Com certeza a Alice, com toda sua utopia de criar mundos imaginários, ficaria se perguntando quem a jogou nessa terra de ninguém, onde em uma passeata, quase pode se ouvir um "cortem a cabeça, é tarde, é tarde, é tarde". Para salvar os pobres animais que falam e aqui habitam. Nesse mundo subterrâneo com palmeiras e sabiás, onde as tragédias que aqui acontecem, não acontecem como lá. Quem diria, a Alice preferia ter a cabeça cortada do que ter que ver tanta baixaria!

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